OPINIÃO: Até Nova Zelândia e Suécia dão aula ao Brasil de Ancelotti na Copa
A Copa do Mundo mais inchada da história finalmente viu chegar ao fim sua primeira rodada. E 24 jogos depois por 12 grupos em sete dias, sem a pressa maluca que tem marcado a imprensa em geral – e a esportiva não é diferente -, é possível fazer uma análise mais segura de alguns aspectos, no caso desta coluna, especificamente, dos ataques. E a constatação é clara: a Seleção Brasileira atual não tem muita coisa, e uma delas é sequer uma dupla de ataque que funcione. Algo que até a Nova Zelândia e a Suécia têm.
E antes que os especialistas em tática de plantão venham contestar que o esquema de Carlo Ancelotti tem três ou quatro homens de frente, já adianto: um time que ainda não encontrou um meio-campo minimamente confiável, como se viu na fraca estreia contra Marrocos, que é um ótimo time, não pode se dar ao luxo de jogar com um trio ou um quarteto ofensivo, não importa a função que tenha sido dada a cada um deles sem a bola – e tudo indica que isto será mantido contra o Haiti, na próxima sexta-feira (19).
Voltemos no tempo e apresentemos um pouco de contexto. Nos dois primeiros títulos do Brasil em Mundiais, o futebol era outro, e o 4-2-4 era algo normal. Em 1970, o esquadrão que levou o tri com Zagallo no comando já mesclava o 4-2-4 com o 4-3-3 e, algo que desequilibra qualquer duelo e discussão, tinha Pelé. Ter um gênio ou um supercraque muda tudo, por isto nem citarei aqui a Argentina, de Messi, ou a França, de Mbappé – cada uma com três gols em suas partidas de estreia neste Mundial. Nem a Noruega, de Haaland, um artista na hora de fazer gols – fez 2 e deu o passe para outro nos 4 a 1 sobre o Iraque.
E aí chegamos a 1994 e a 2002. “Estavam com saudade de mim?”, perguntou Neymar na quarta-feira (17) a profissionais de imprensa ao entrar em campo para o treino em Morristown (EUA). Não, Neymar, a saudade é de Romário e Bebeto, de Ronaldo e Rivaldo. Foi com estas duas duplas de ataque que o Brasil levou o tetra e o penta, respectivamente. Com trocas entre eles, com gols e assistências de um para o outro.
Agora, nos Estados Unidos, a Seleção jogou o primeiro duelo com Vinicius Jr. aberto na esquerda, Raphinha na direita e Igor Thiago, tachado rasamente como vilão após o 1 a 1, centralizado. Tente lembrar alguma jogada combinada entre eles. Lembrou? Não, porque não teve. A combinação entre atacantes do time verde e amarelo só se deu aos 32 minutos do segundo tempo, já com Matheus Cunha em campo no lugar de Paquetá e Luiz Henrique no de Igor Thiago. Cunha, antes do meio-campo, como um armador, fez lançamento primoroso para Vini Jr., que cruzou na medida para Raphinha pegar de primeira mascado e dar nas mãos do goleiro Bono.
Como comparação (sem Argentina e França, como já colocado acima), podemos falar logo do México, que abriu a Copa também com três atacantes, assim como o Brasil. O primeiro gol, de Quiñones, foi um vacilo da defesa sul-africana, ok, mas o segundo saiu de troca de passes com participação de todo o trio, com o fim sendo o cruzamento na medida de Alvarado para a cabeçada mortal de Raúl Jiménez. Os Estados Unidos passearam com um 4 a 1 tendo apenas um atacante de ofício, Balogun, que fez 2, e se aproveitando da partida pífia que fez o Paraguai. A Alemanha fez 7 a 1 em Curaçao, que só de estar na Copa já é um feito.
E a Espanha? Sem o jogadoraço Yamal ainda 100% e só no segundo tempo, o time apontado como um dos favoritos ao título não foi bem com Ferran Torres, Gavi e Oyarzabal na frente, com este último, assim como Igor Thiago, não sendo um supergoleador, mas que funciona bem dentro de uma equipe organizada e com trabalho estruturado, o que não é o caso do Brasil que chegou ao Mundial com apenas 12 jogos sob o comando de Carlo Ancelotti.
E Portugal, de Cristiano Ronaldo? Começou contra a RD Congo com o cracaço isolado à frente, não deu certo, e quando a tropa de outros atacantes entrou para ajudá-lo no segundo tempo (Gonçalo Ramos, Francisco Conceição e Rafael Leão), faltou inteligência ao meio-campo.
Chegamos, finalmente, às duplas que ataque que deram um show nesta primeira rodada. Primeiro a da Suécia, de campanha sofrível nas eliminatórias europeias (lanterna de seu grupo, o B) e que chegou à Copa via Nations League e repescagem, na qual desbancou Polônia e Ucrânia. Isak e Gyokeres, Gyokeres e Isak, a combinação entre os atacantes de Liverpool e Arsenal enlouqueceu a defesa da Tunísia, que tomou 5 a 1 e até demitiu o técnico após o vareio na noite de domingo (14). Quatro dos cinco tentos tiveram participação direta ou indireta de ambos, sem falar nas oportunidades criadas que não acabaram com a bola nas redes.
Na segunda (15), foi a vez da Nova Zelândia dar aula na frente. Não teve vitória contra o Irã, mas o 2 a 2 veio acompanhado de um espetáculo à parte de Wood e Just, o último sendo o autor dos dois gols da seleção da Oceania. No primeiro, o grandalhão camisa 9 fez o papel de pivô duas vezes na mesma jogada, e o rápido camisa 11 jamais deixou de procurá-lo e de acompanhá-lo; no segundo, uma troca de passes maravilhosa acabou com Just dando nos pés de Wood, que devolveu de primeira e viu o companheiro arrematar cruzado para marcar.
Os dois casos, o sueco e o neozelandês, são aulas diretas de teoria que funciona na prática para Ancelotti e a cesta de atacantes que esta Seleção Brasileira tem. Em um trabalho tão curto e verde, mas com um objetivo tão gigantesco, menos e simples podem ser e valer muito mais.
Onde assistir à Copa do Mundo?
Todos os jogos da Copa do Mundo terão transmissão ao vivo da CazéTV, disponível sem custo adicional no Disney+.
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