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Como a Alemanha chegou ao pior momento de sua história em Copas?

O gol de Mario Götze no Maracanã, em 13 de julho de 2014, garantiu o quarto título da Alemanha em Copas do Mundo. O que ninguém poderia imaginar é que aquele momento também marcaria o início da pior sequência da história do país na competição.

Com a derrota nos pênaltis para o Paraguai nesta semana, os alemães foram eliminados na segunda fase do Mundial, depois de caírem ainda na fase de grupos em 2018 e 2022.

As críticas, naturalmente, se concentraram em Julian Nagelsmann. Mas a nova eliminação alemã parece expor algo maior do que apenas os erros de um treinador jovem. O país atravessa uma crise de comando, identidade e competitividade no futebol que sobrevive a diferentes ciclos.

As vozes da Alemanha

“Antes da disputa de pênaltis, as duas equipes formaram um círculo. O técnico do Paraguai motivou seu time de forma emocionante, enquanto Nagelsmann lia algo em um pedaço de papel. Nem sei se os jogadores chegaram a entendê-lo”, disse Lothar Matthäus, campeão mundial em 1990 e recordista de partidas pela seleção alemã, com 150 jogos.

As críticas de Matthäus não pararam por aí, em declarações à Sky Sports da Alemanha. Para ele, Nagelsmann não apresentou respostas convincentes depois dos sinais preocupantes nas partidas contra Costa do Marfim e Equador.

“Eu esperava que tivéssemos aprendido com o que vimos contra Costa do Marfim e Equador. Achei que Julian Nagelsmann tiraria conclusões daqueles jogos. O que a Alemanha mostrou contra o Paraguai foi simplesmente muito pouco. Não vi um plano de jogo claro. De fora, não parecia haver união em campo. Se Nagelsmann permanecer como técnico da seleção, isso me surpreenderá. Entendo por que ele não pretende renunciar, mas Julian precisa ser honesto consigo mesmo: ele realmente tirou o máximo desta equipe? Minha resposta é um claro não.”

Nagelsmann tem contrato com a DFB até 2028, mas sua permanência passou a ser seriamente questionada após a eliminação precoce na Copa.

A disputa de pênaltis sintetizou parte do problema. A Alemanha perdeu uma decisão desse tipo pela primeira vez na história das Copas do Mundo. Jonathan Tah, responsável pela sexta cobrança, jamais havia batido um pênalti como jogador profissional. Antes disso, Joshua Kimmich procurou voluntários e não recebeu respostas positivas de outros atletas, como Leon Goretzka, por exemplo.

A imagem de Kimmich buscando batedores e encontrando hesitação diz muito sobre o momento alemão. Não se trata apenas de acaso, nem somente de uma cobrança desperdiçada. Em um momento-limite, faltaram convicção, liderança e hierarquia dentro de campo.

“Isso não é coincidência. As pessoas responsáveis precisam enfrentar as consequências. Não há outra forma de dizer isso. Tivemos a Eurocopa em casa, a Nations League em casa e agora esta Copa do Mundo. Olhando para trás, ainda acho que o desempenho na Euro foi supervalorizado do ponto de vista esportivo. Os outros dois torneios foram decepcionantes. Por isso, essa situação precisa ser enfrentada. Tanto pelo técnico da seleção quanto pela federação”, afirmou Mats Hummels, zagueiro campeão do mundo em 2014, em entrevista à Magenta TV.

Posteriormente, o ex-jogador de Borussia Dortmund e Bayern de Munique também apontou para a necessidade de decisões sobre o elenco. Na visão de Hummels, alguns atletas podem encerrar por conta própria sua trajetória na seleção. Outros, mesmo ainda no início da casa dos 30 anos, talvez precisem ser avaliados depois de acumularem quatro, cinco ou seis torneios sem uma campanha forte pela Alemanha.

Como a Alemanha chegou até aqui

Hoje há consenso de que a saída de Joachim Löw foi adiada além do necessário. Campeão mundial em 2014, o treinador assumiu a seleção em 2006 e permaneceu no cargo até março de 2021, após o acúmulo de fracassos em competições oficiais e a maior derrota da Alemanha em 90 anos: a goleada por 6 a 0 sofrida para a Espanha.

Hansi Flick, seu assistente durante muitos anos, chegou tarde demais. Comandou a Alemanha na eliminação no Qatar, permaneceu no cargo após a Copa e acabou demitido depois da derrota por 4 a 1 para o Japão, em amistoso. Jamais teve apoio interno consistente na DFB, nem mesmo de seu diretor esportivo, Oliver Bierhoff, que deixou o cargo pouco antes dele.

A DFB também parece ter perdido a capacidade de conduzir processos. Segurou Löw tempo demais, apostou em Flick sem convicção, entregou a gestão esportiva a Rudi Völler e, depois, escolheu Nagelsmann como símbolo de uma renovação que ainda não se confirmou.

Völler, lendário atacante alemão das décadas de 1980 e 1990 e campeão do mundo ao lado de Matthäus na Itália, assumiu a responsabilidade pelas decisões relacionadas à seleção dentro da DFB. Antes de escolher Nagelsmann, chegou, inclusive, a comandar a equipe de forma interina. Agora, também é cobrado pela escolha, enquanto o nome de Jürgen Klopp se torna o favorito entre torcedores.

Em meio às manifestações de tantas figuras históricas do futebol alemão, o ex-goleiro Jens Lehmann, titular da Alemanha na Copa de 2006 sob o comando de Jürgen Klinsmann, criticou, em entrevista à CBS, não apenas Nagelsmann, mas toda a comissão técnica e, na prática, a decisão de confiar a seleção a profissionais que nunca foram jogadores de elite.

“É tudo uma questão de formação de treinadores. Por exemplo, se você olhar para os técnicos de hoje, Nagelsmann nunca foi jogador. E eu nem sei os nomes dos seus auxiliares. No passado, tivemos grandes treinadores e dirigentes de seleção, como Beckenbauer, depois o próprio Rudi Völler, que também foi jogador, além de Jürgen Klinsmann e Berti Vogts. Nagelsmann é o primeiro, em 30 ou 40 anos, que nunca jogou profissionalmente. E toda a comissão técnica dele também não tem esse perfil. Então imagine um jogador de altíssimo nível chegando à seleção alemã e encontrando pessoas que não conseguem explicar a ele os detalhes do jogo, porque são justamente os detalhes que fazem a diferença quando você quer evoluir e ter sucesso.”

A crítica de Lehmann pode ser discutida. Há treinadores brilhantes que não foram jogadores de elite. Mas, no contexto alemão, ela toca em um ponto sensível: a percepção de que a seleção perdeu referências fortes de liderança, autoridade e vivência competitiva no mais alto nível.

Manuel Neuer, reconvocado para a Copa de 2026, encerrará definitivamente sua trajetória na seleção alemã. O grupo que viajou aos Estados Unidos conta ainda com outros seis jogadores de 30 anos ou mais: Oliver Baumann (36), Pascal Gross (35), Antonio Rüdiger (33), Joshua Kimmich (31), Leon Goretzka (31) e Leroy Sané (30).

A nova geração é liderada por Jamal Musiala e Florian Wirtz, ambos com 23 anos, e conta ainda com Aleksandar Pavlović (22), Nick Woltemade (24) e Felix Nmecha (25), sem considerar Lennart Karl (18), do Bayern, cortado por lesão. Talvez um ponto pouco debatido, inclusive pelas próprias lendas alemãs, seja a mentalidade da equipe. A combinação entre veteranos e jovens talentos não funcionou desta vez e já havia fracassado em torneios anteriores.

Neuer se despede como último grande símbolo do ciclo vencedor. Kimmich, Goretzka, Rüdiger e Sané representam uma geração que acumulou decepções. Musiala e Wirtz, por mais talentosos que sejam, ainda não parecem ter assumido completamente a seleção. São, de qualquer modo, prova da capacidade reveladora da base alemã.

Há, portanto, um choque de gerações que, pelos resultados, prejudica o futebol alemão. Nagelsmann, jovem tanto na idade quanto na forma de liderar, não conseguiu resolver esse problema, muito menos conduzir o grupo. Klopp passa a representar, para muitos, a esperança de uma nova reconstrução.

Uma hipótese estrutural

As críticas se concentram naturalmente em treinadores, dirigentes e jogadores. Mas talvez exista um fator estrutural ainda menos debatido: a própria Bundesliga.

Não há evidência de uma relação direta entre a queda da seleção alemã e a falta de competitividade interna pelo título nacional. Ainda assim, a coincidência chama atenção. O pior momento da história da Alemanha em Copas é contemporâneo à fase de menor alternância de campeões da Bundesliga.

Nas últimas 14 temporadas, desde 2012-2013, o Bayern conquistou 13 títulos alemães. O único intruso foi o Bayer Leverkusen de Xabi Alonso, campeão em 2023-2024.

Antes disso, o Bayern havia conquistado apenas três tricampeonatos consecutivos em toda a sua história. Até a década passada, a alternância de campeões da Bundesliga era muito maior. Isso se refletia em jogadores mais competitivos para a seleção alemã?

É impossível responder com certeza. Ainda assim, a hipótese é difícil de ignorar. A seleção de 2014 nasceu de um ambiente mais competitivo, plural e pressionado – inclusive com filhos da Alemanha ainda dividida pelo Muro de Berlim e a Guerra Fria.

A Alemanha atual parece menos preparada para lidar com a pressão, o conflito, a adversidade e os momentos decisivos.

Doze anos depois do gol de Götze no Maracanã, a DFB ainda procura entender como saiu do topo do futebol mundial para viver a mais longa crise de sua história em Copas.

Créditos Autor: Gustavo Hofman, de Dallas (EUA), colunista do ESPN.com.br
Créditos Imagens: Reprodução Internet

Fonte: Clique aqui

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