De dor de cabeça de Ancelotti a proibição no Palmeiras como ‘remédio’: por que camisa 10 sumiu e como especialistas veem cenário atual
A pior campanha da Seleção Brasileira na história da Copa do Mundo reacendeu o debate em relação à convocação feita por Carlo Ancelotti. Entre as escolhas mais discutidas esteve a opção de não levar um meia-armador de origem entre os 26 nomes.
A camisa 10 ficou com Neymar. Já na reta final da carreira, o craque passou a atuar mais recuado, como organizador das jogadas, em parte por causa das limitações físicas. No auge, porém, destacou-se principalmente como atacante.
Com Neymar longe das condições físicas ideais, Ancelotti montou a Seleção sem um armador de origem. O meio-campo foi formado por Casemiro, Bruno Guimarães e Lucas Paquetá. Após a lesão de Paquetá, o treinador usou Gabriel Martinelli na função.
No fim, o Brasil sentiu falta de um camisa 10 e acabou dependente das transições rápidas, principalmente com Vini Jr.
Há uma semana, o próprio Ancelotti admitiu, em entrevista exclusiva à ESPN, que “faltam meio-campistas” na Seleção Brasileira.
A ausência de jogadores com essas características alimentou a dúvida: a ausência de um camisa 10 é um problema geracional do Brasil ou é uma adequação ao futebol moderno?
O ESPN.com.br conversou com jogadores, ex-jogadores, treinadores e comentaristas para entender o motivo do futebol estar carente do 10 clássico.
Para muitos, a raiz do problema está nas categorias de base. Ex-camisa 10 de Palmeiras, Cruzeiro, Coritiba e Fenerbahçe, e atual treinador do Athletic, Alex vê uma influência do mercado europeu na formação dos jogadores brasileiros.
“Pensando no mundo atual, a formação do 10 passa pela formação, em como os clubes olham o número 10, se você quer o número 10 ou não quer o número 10, se o time principal se utiliza do 10 ou não se utiliza do 10, que tipo de camisa 10 você quer… É o que foi nosso futebol desde sempre, mas as pessoas envolvidas em clube, em formação, precisam raciocinar se é isso ou se é o futebol mercadológico, fazer jogadores pra vender”, afirmou.
“Ao ser mercadológico, você tem que colocar no mercado o que o mercado está buscando. E de repente esse 10 tradicional brasileiro o mercado não pede, e a formação deixou um pouco de lado. Se a gente quer esse 10 de novo, a gente tem que começar a olhar pra crianças de 8, 9, 10 anos”, completou Alex.
O discurso de Alex está alinhado aos de outros ex-jogadores que também se destacaram no cenário nacional e internacional vestindo a 10.
“É um debate profundo esse, né? Mas um dos pontos que temos que olhar com carinho é realmente a liberdade que nós temos tido e dado para esses jogadores lá na base, quando eles começam. O quanto que estamos engessando esses jogadores talentosos com muitas preocupações táticas e estratégicas, o quanto estamos olhando mais para o resultado imediato do que a médio, longo prazo e fazendo com que esses talentos fiquem pelos caminhos, optando por jogadores fortes, mais rápidos”, disse Diego Ribas.
“Acho que isso está muito na formação da base. A gente faz um trabalho para o atleta se profissionalizar, aí quando ele se profissionaliza, o cara que é mais baixinho não tem mais espaço. Mas aí contrata o argentino, o uruguaio… A gente tem muito talento. Nossos principais jogadores estão nas grandes ligas fora do país”, destacou.
A título de comparação, a Seleção Brasileira que conquistou o tricampeonato mundial em 1970 tinha no time titular quatro jogadores que usavam a camisa 10 em seus clubes: Pelé (Santos), Jairzinho (Botafogo), Gérson (São Paulo) e Rivellino (Corinthians).
Problema mundial?
Filho de Jairzinho e atual treinador do Vitória, Jair Ventura enxerga a escassez dos camisas 10 como uma questão mundial, citando o Real Madrid como exemplo. Hoje, o número é utilizado pelo atacante Kylian Mbappé.
“Não é uma situação do Brasil. Quem é o camisa 10 do Real Madrid? Não tem. Os médios nesse 4-3-3, que é uma tendência hoje, acabaram tomando o lugar. A Espanha, que foi campeã mundial, jogava no 4-2-3-1, então você não tinha um camisa 10. A gente passa muito pelo momento, equipes que conseguem títulos importantes acabam virando tendências no mundo”, apontou.
Bom exemplo
Uma das referências se tratando de categoria de base no Brasil, o Palmeiras adota desde 2016 a metodologia de colocar os jovens atletas para treinar em campos de terra.
O objetivo é desenvolver os aspectos técnicos e mentais, incentivando também os atletas a procurar as jogadas individuais com os dribles.
Coordenador das categorias de base do Palmeiras, João Paulo Sampaio comentou em entrevista ao Podcast Denílson Show em 2024 sobre o vício que está fazendo o futebol brasileiro parar de produzir “camisas 10”.
“É uma das coisas que eu brigo. Hoje na base está quase que proibido isso, pegar esse melhor jogador e colocar no canto. Quero que ele pegue mais na bola. Por que ele dribla e erra, e o treinador quer colocar ele no canto. Aí você vai na Argentina para pegar um 10, baixinho, driblador, que chega na área”, iniciou.
“O Botafogo pagou agora, maior compra da história do Brasil (Almada), Arrascaeta…a gente pega esses jogadores e coloca do lado. Aí eu proibi isso”, explicou o profissional.
“O próprio Estêvão é 10. Mas, para se proteger e proteger eles, a gente coloca eles de ponta. Hoje, no Palmeiras, tem uns cinco ou seis nomes que só jogam por dentro. É muito mais fácil ele ir depois para a beirada. Se eu vou na América do Sul atrás desse meia, vamos fazer aqui”, finalizou.
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